sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

As funções do coordenador pedagógico



Quem é o quebra galho numa escola? Se você é professor atuante já sabe a resposta. É o coordenador pedagógico.
O fato que neste “faz tudo” ele acaba esquecendo-se do principal: Sua própria função. O trabalho bem definido e consciente do coordenador é fundamental para alcançar sucesso em qualquer escola.
No caso das escolas públicas do Distrito Federal há, basicamente, três tipos de coordenação:

Coordenação central: Tem por primazia o estudo e a elaboração de documentos orientadores destinados à rede pública de ensino, a elaboração de políticas públicas que busquem a qualificação da ação pedagógica na rede.

Coordenação intermediária: Atua no âmbito das escolas vinculadas as suas respectivas regionais de ensino. Grosso modo, podemos dizer que é o elo entre coordenação local e coordenação central.

Coordenação local: É a coordenação nas escolas. O coordenador responsável atua juntos aos professores cotidianamente. Diferente da maioria dos estados brasileiros, nas  escolas públicas do DF o coordenador não faz parte da equipe diretiva, ao menos teoricamente.  Os professores elege, em consonância com  critérios pré-estabelecido em decreto, um colega do próprio grupo para ocupar tal posto. O nome escolhido é apresentado ao diretor,  o qual não possui o poder de veto. É desse coordenador que falaremos a seguir.

O interessante é que o Projeto Político – Pedagógico Professor Carlos MOTA, documento destinado a toda rede pública de ensino, no subitem 11.1, página 114, deixa bem claro que não há hierarquia entre as coordenações.

Assim, os três níveis de coordenação não devem ser vistos de forma hierarquizada nem sobrepostos, mas como complementares, dentro de uma perspectiva de articulação entre os diferentes níveis como forma de dar significado à coordenação pedagógica [...].

Você, caro leitor, que mora em outro estado, talvez sinta uma pontinha de inveja com tanta coordenação e com tal nível de organização.  Sinta não! Aposto que os problemas daqui são semelhantes aos daí. Uma parcela considerável dos professores do DF sequer sabe da existência desses três níveis de coordenação. Na prática, não é raro ouvir relatos e queixas de professores que se sentem abandonados à própria sorte. Mas as causa para isso é assunto para outra conversa.
É indiscutível a importância da figura do coordenador pedagógico na escola. Numa analogia simples podemos dizer que ele equivale ao processador de um computador ou ao técnico de um time. Se um processador for inadequado, a eficiência de um sistema operacional estará comprometida, “trava tudo”. Se o técnico for ruim o time poderá até ganhar, mas vai depender das habilidades individuais de um ou outro jogador e muita sorte.
Quando uma escola não tem um coordenador deveras pedagógico até é possível ver belos trabalhos e bons resultados numa sala, mas ao lado de outra com qualidade duvidosa. A escola não consegue encontrar sua identidade pedagógica. Ilhas de qualidade são formadas (ou não) fundamentadas apenas nos esforços individuais ao invés de firma-se num trabalho coletivo consciente e estruturado. Aquele que se destaca, em meio ao caos, se cansa da solidão, se cansando pode sentir-se desmotivado, acomodar-se ou buscar novos horizontes.  E a escola? Fadada ao fracasso.
Uma dica importante para o coordenador é: "Decore" o projeto político pedagógico (PPP) da sua escola . Assim como, a bíblia está para os cristãos, o alcorão para os Islâmicos, o PPP está para o coordenador pedagógico. Não tenha receio de parecer um fanático religioso, ande com ele debaixo do braço. Mas, diferentemente dos livros sagrados, não tenha medo de modificá-lo sempre que necessário e junto com sua equipe. A princípio, PPP foi debatido, discutido e deve ser aprimorado. É ele que vai guiar a todos.
Numa pesquisa rápida no site da secretaria de educação pode-se encontrar o regimento, as diretrizes pedagógicas e o projeto político. Esses documentos ajudam a desmitificar algumas atribuições que o senso comum escolar insiste em impor ao coordenador.
O Artigo 20 do Regimento escolar das instituições educacionais da rede pública de ensino do Distrito Federal fixa a finalidade da coordenação como espaço de planejamento a fim de dar suporte à execução da proposta pedagógica. Em seguida, no Artigo 21, descreve a função do coordenador. Destaco alguns parágrafos no qual podemos observar que a razão da existência do coordenador nada mais é que facilitar e estruturar o trabalho do professor. Veja:

III - articular ações pedagógicas entre professores [...].
IV - divulgar e incentivar a participação dos professores em todas as ações pedagógicas [...].
V - estimular e acompanhar o trabalho docente [...].
VI - divulgar, estimular e propiciar o uso de recursos tecnológicos, no âmbito da instituição educacional, com as orientações metodológicas específicas;
VII - orientar os professores recém-nomeados e recém-contratados quanto ao desenvolvimento da Proposta Pedagógica;
VIII - propor reflexão avaliativa da equipe, objetivando redimensionar as ações pedagógicas...

As Diretrizes Pedagógicas da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal no subitem 7.1, páginas 95 e 96 ratifica a coordenação pedagógica como espaço para debate, discussões, avaliação e planejamento.

Nesse sentido, cabe à coordenação pedagógica oportunizar um espaço dialógico de interlocução e reflexão dos fundamentos teóricos subjacentes à práxis pedagógica, bem como atuar no campo da mediação do seu processo de transformação.

O novo Projeto Político – Pedagógico Professor Carlos MOTA, subitem 11.1. Coordenação Pedagógica: um Espaço de Construção Coletiva, descreve a coordenação como espaço vivo e dinâmico, fundamentado na dialogicidade também destinado a implementação e avaliação do PPP. Para isso acontecer, a figura do coordenador é indispensável.

Para que a coordenação seja um espaço vivo, o coordenador pedagógico escolhido pelo grupo deve articular a reflexão do pensar e do fazer pedagógico.  Para tanto, precisa assumir o protagonismo no apoio ao trabalho pedagógico, à formação continuada, ao planejamento e ao desenvolvimento do PPP [...].

Uma pesquisa encomendada pela Fundação Victor Civita (FVC) à Fundação Carlos Chagas (FCC), publicada no site da revista Nova Escola, encontrou situações semelhantes às vividas aqui nas escolas públicas do DF. A pesquisa mostra com clareza os desvios de função do coordenador pedagógico. Veja:

Substituir professores que faltam:  19% dos entrevistados fazem isso uma ou algumas vezes por semana. Sua função, porém, é ajudar a direção a montar, com os docentes, um banco de atividades e uma lista de substitutos para resolver esse tipo de emergência. No caso do DF, há um banco reserva de professores temporariamente contratatos para essa finalidade, mas quase nunca funciona.

Cuidar de questões administrativas, financeiras e burocracias em geral: 22% acreditam que isso é seu papel, embora os especialistas garantam que a parceria com o diretor deve se restringir aos assuntos pedagógicos. É relativamente comum ver um apoio tão importante ao professor torna-se apoio administrativo do diretor ou da secretaria. Às vezes por imposição do diretor, às vezes pela vontade do próprio coordenador de se esquivar do seu real papel.

Ao contrário dos dois itens relacionados acima, Piletti (1998, p.125) aponta as principais atribuições do coordenador pedagógico, listadas em quatro dimensões: Veja:

a) acompanhar o professor em suas atividades de planejamento, docência e avaliação;
b) fornecer subsídios que permitam aos professores atualizarem-se e aperfeiçoarem-se constantemente em relação ao exercício profissional;
c) promover reuniões, discussões e debates com a população escolar e a comunidade no sentido de melhorar sempre mais o processo educativo;
d) estimular os professores a desenvolverem com entusiasmo suas atividades, procurando auxiliá-los na prevenção e na solução dos problemas que aparecem.

A desorientação e quase perda da identidade do coordenador, inviabilizam a reflexão sobre suas práticas. Existe uma dificuldade do próprio coordenador pedagógico no desenvolvimento do seu trabalho em definir seu campo de atuação na escola. Ele acaba acompanhando o ritmo ditado pelo senso comum que está cada vez mais arraigado no pensamento da maioria dos profissionais que atuam na escola. O coordenador pedagógico, sem dúvida nenhuma, é uma peça peculiar na escola, ele deve atuar no sentido de integrar os envolvidos no processo ensino aprendizagem, mantendo as relações interpessoais de maneira saudável, dando voz e vez aos elementos envolvidos neste processo. Isso só será possível no espaço de diálogo e debate com o coletivo.

Veja agora um resumo da pesquisa O Coordenador Pedagógico e a Formação de Professores: Intenções, Tensões e Contradições, encomendada pela Fundação Victor Civita (FVC) à Fundação Carlos Chagas (FCC), publicada no site da revista Nova Escola.


É função do coordenador pedagógico
· Garantir a realização semanal do horário de trabalho pedagógico coletivo; 78% afirmam reunir-se periodicamente com todos os professores, porém só isso não basta. É preciso ter tempo para planejar e tornar mais produtivos esses momentos.
· Organizar encontros de docentes por área e por série; Só 27% declaram reunir os professores por disciplina, para tratar de conteúdos específicos, e 31% por ano, para conversar sobre as turmas.
· Dar atendimento individual aos professores; Apenas 19% discutem com cada docente da equipe e sugerem novas estratégias de ensino, após observar as práticas pedagógicas em sala de aula.
· Fornecer base teórica para nortear a reflexão sobre as práticas; Não mais de 31% apontam o preparo dos docentes como um dos principais problemas da coordenação pedagógica.
· Conhecer o desempenho da escola em avaliações externas; 47% dos entrevistados citaram um número que está fora da escala do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), embora a maioria afirme saber o resultado da escola. Mais do que ter o número, é essencial usá-lo para guiar o planejamento em equipe.
NÃO é função do coordenador pedagógico
· Fiscal; 55% dos coordenadores conferem se as classes estão limpas e 72% inspecionam a entrada e saída de alunos todos os dias. Outras vezes faz análise da prática pedagógicas do professor somente para pegar erros. Essa prática desvirtua o seu trabalho, que é de ser parceiro mais experiente do professor.
·  Sindico; Cerca de 35% dos consultados citaram a falta de conservação das instalações como sendo um problema do seu cotidiano. Ficando sob sua responsabilidade o controle da manutenção e até promoção de eventos (como galinhadas e gincanas) para eventuais consertos. Cuidar de recursos e infraestrutura é atribuição do diretor e do vice, é deles a responsabilidade de negociar com a Secretaria de Educação reformas ou consertos.
·  Secretário; Conferir listas de chamadas e arquivá-las, organizar os horários para o uso da biblioteca e dos laboratórios, escrever as atas de todas as reuniões conferir documentos. A pesquisa constatou que 22% dos coordenadores entrevistados colocam trabalhos administrativos na lista de atividades da coordenação pedagógica. Questões burocráticas são atribuições de funcionários da secretaria.
· Relações Públicas; Mais da metade dos coordenadores entrevistados (54%) diz que gostaria de ter mais tempo para visitar empresas a fim de firmar parcerias com a escola - tarefa que cabe ao diretor. O envio do comunicado aos pais, o agendamento da visita ao museu e outras tarefas do gênero podem ficar nas mãos de funcionários da secretaria, sob o comando dos professores responsáveis pela ação. Se o coordenador tiver alguma ideia de parceria com empresas ou entidades do entorno, deve planejar o projeto junto com os professores, justificando a importância da ação para a ampliação dos conhecimentos dos alunos, e levá-lo ao diretor.
·  Assistente social; Alcoolismo, drogas, desemprego na família. De tão tocado pelos problemas dos alunos o coordenador toma a frente e se empenha em arrecadar alimentos não perecíveis para doar aos mais carentes. Gasta grande parte do seu tempo procurando parcerias de pessoas ou ONGs que possam minimizar o sofrimento alheio. A militância social é iniciativa de outra ordem, que o coordenador pedagógico até pode ter, mas nunca deve ser exercida no horário de trabalho, no qual é sua obrigação se dedicar à formação de professores. Agora atenção! Ações que abram a escola e promovam a interação com a família e a comunidade do entorno - como promover palestras temáticas de interesse geral - são vistas com bons olhos.
·  Psicólogo: Esse é um ponto difícil de delimitar. Há uma linha muito tênue até onde o coordenador pode chegar. 25% dos coordenadores acreditam ser sua atribuição resolver questões de alunos indisciplinados. E de fato é, se a raiz da indisciplina vier de alunos que não estão aprendendo por falta de uma reorganização didático-pedagógica. Agora, receber pais para resolver brigas do filho com o colega ou rixa entre alunos, não. Para isso existe (no Distrito Federal) a figura do orientador, cuja função é fazer a ponte entre as demandas dos alunos e familiares com a escola. Também há nas regionais de ensino (DF) o psicólogo, propriamente dito, que poderá ser requisitado em alguns casos.
NÃO é função do coordenador pedagógico

Referências:


2 comentários:

  1. As informações passadas sobre as atribuições do coordenador pedagógico nas escolas públicas do DF estão ótimas. Obrigado!

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    1. Obrigado anônimo!
      Gostaria que colocasse aqui seu nome e de onde escreve. Grato!

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